Thursday, March 31, 2005

Sarau de Santa

Neste sábado, 02/04, estaremos realizando a terceira edição do Sarau de Santa Tereza. Desta vez, o evento acontecerá na livraria Largo das Letras (Almirante Alexandrino 501 - Largo dos Guimarães), às 18h.
Os escritores convidados são: Augusto Sales & Mara Coradello.

Lembramos que quem quiser levar textos de autoria própria terá espaço para apresentá-los.

Ah, o evento é gratuito.

Monday, December 06, 2004

Possibilidades

No meio da rua

por Ronize Aline [meuemail@ronizealine.eti.br]

Ela atravessou a rua sem olhar para a esquerda. Olhava o fluxo de carros, ainda sentindo a cabeça latejar pela última imprudência. Procurava os carros, fugia dos carros. Olhava para a direita, atenta, sem nem mesmo dar-se conta do sinal verde brilhando sobre si. E assim venceu a distância entre as duas margens da rua. Margens que separavam possibilidades do ser e do não ser; do estar-se aqui ou acolá.

Se tivesse olhado para a esquerda o teria visto. Camisa jeans desabotoada até o meio do peito, grossa corrente dourada com um crucifixo na ponta, resquícios de gel no cabelo lembrando a noite passada em ambientes esfumaçados. Teria achado-o bonito. Olharia uma segunda vez, perderia o passo, quase atropelada. Iria recuperar-se do susto amparada nos braços daquele desconhecido, que passaria um lenço de seda sobre sua testa enquanto lançava um olhar furtivo para o seu decote pronunciado.

Se tivesse olhado para a esquerda não teria aceitado o convite de Osmar, o vizinho chato que não saía do seu pé. Não chegaria nem mesmo a ouvir os planos de Osmar, o emprego na loja do tio, o dinheirinho certo no fim mês, a casinha própria com quarto para os gêmeos, os almoços de domingo na casa da sogra. Não seria a mãe zelosa, a pacata dona-de-casa, porque mulher de Osmar não trabalha fora.

Se tivesse olhado para a esquerda, teria que dar duro para conseguir uns trocados e encher a mesa. Sem trabalho fixo, esse outro dizia que tinha uns negócios mas dinheiro que era bom, nada! Sem casa fixa, iria viver se mudando assim que fossem despejados por falta de pagamento do aluguel. Pelo menos, três vezes por semana,Po fugiria da polícia sem nem mesmo saber o por quê, mas jurando que seu homem não havia feito nada de errado. E depois de passar o dia inteiro chorando sozinha, em algum muquifo qualquer, ele chegaria cheirando a colônia barata, a abraçaria por trás como ela jamais fora abraçada por Osmar, falaria umas palavras que a deixariam ruborizada e acabariam na cama.

Se tivesse olhado para a esquerda, não teria um marido que era motivo de inveja das amigas, dois filhos educadíssimos que deixariam qualquer mãe orgulhosa. Se tivesse olhado para a esquerda, teria se apaixonado.

Friday, December 03, 2004

Sobre a inspiração e outros


Um personagem em busca de uma história


Por Elis Galvão [elisgalvao@hotmail.com]


Estou com preguiça do mundo. As horas não me poupam com sua velocidade sombria. Hoje é um daqueles dias em sou um sim e um não, inteira e pela metade, cheia e vazia. Compro o jornal, a manchete chapada vende: Jornais ingleses dizem que o Rio é a cidade da cocaína e da carnificina. Não sabia que os ingleses eram especialistas em assuntos cariocas.

Quero apagar o dia com inutilidades. Abro a geladeira, nada me apetece; olho livros enfileirados, nenhum autor me seduz; deito, o sono nem mesmo coça minhas pálpebras; dou a falsa alegria da rua ao meu cão, coloquei a coleira, mas não abri a porta; tento a TV, ela dilacera meus olhos; o vento acena para meus cabelos, deixo que ele balance a rede na varanda vazia. Carrego o incômodo da casa sob as sombras das horas.

Minha consciência diz: Vá para a rua aprisionar uma cena na memória. Não consigo sair. Não quero escrever, falta uma inspiração viva, raptada do cotiano. "Mais um dia crônico", é tudo que consigo registrar na agenda. Pareço um caracol de jardim, levo minutos longos de um cômodo a outro.


Cheiro de chá de hortelã, biscoitos para adoçar a boca, mas não as idéias. Sento outra vez diante do computador. Tela branca do word. Conexão Velox para sites infinitesimais. Download de canções do João Gilberto para darem ritmo as palavras que busco. Nada parece funcionar, desta vez, como eu, a crônica não quer registrar detalhes da rua.


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A conspiração sob a inspiração

por Liana Dantas [scintillosa@hotmail.com]

O tormento do ser humano é a questão do ‘não-fazer’. Quando se ‘não faz’ algo, que naturalmente deveria ser feito, por esforço próprio, nomeia-se o caso: falta de inspiração. Santíssimo, não pode ser, estou horas a fio sentada, em pé ou parada, irrequieta, muda ou cantando e nada, somente o nada paira sob meus neurônios. Batata! Falta de inspiração, oras. A grandessíssima falta de autocrítica que o ser humano insiste em não adquirir,nomeia-se, assim: tá ‘out’, é bobinho! ou personalidade fraca.

Sim, acreditamos piamente termos certos poderes (Podres poderes!). A facilidade que é ter um bode expiatório como a (falta de) inspiração é maior do que qualquer avanço tecnológico. Quando pedi ao meu pai, um funcionário público e baiano de meia idade, para que ele instalasse uma lâmpada no closet sombrio e malfeito que o antigo morador deixou, e que é iluminado por um abajur em forma de peixe comprado no Mundo Verde, balbuciou um “Tá” e após alguns minutos ele declamou “Isso tem de ser com calma, quando eu tiver inspiração”. Jesuscristodenazarelouvainos, inspiração para instalação de lâmpadas? Aí, percebi – pois, eu percebo o mundo através do meu pai. Ele é um objeto de estudo poderosíssimo. Uma pessoa que acorda as cinco da matina para caminhar em volta do Maracanã, uma bolha de gás carbônico, e depois ingerir dois litros de vinho, é ou não um objeto de estudos?- que a procrastinação barata é camuflada pelo álibi ‘inspiração’.

Essas minhas buscas por respostas, me causam um pouco de medo. O que acaba resultando em novas teorias pessoais, que acaba resultando em novas consultas ao analista, que acaba resultando em crise. Em contrapartida, como valorizo o ‘processo’ e não o fim, é interessante obter um “momento Maga Alquimista” na vida.

Observando as características híbridas, antropofágicas e marcantes de meu pai, pude perceber que a ‘falta de inspiração’, na verdade, é falta de vontade ou preguiça mesmo. Assim, simples e bruto, sem glamour algum. Atirando-me também nesta roda, a falta de inspiração pra escrever é a pura preguiça de elaborar. Assim, simples e doloroso, sem mistério algum.

No mais, continuarei tentando criar outras escusas, para assim, criar, outras teorias. É confortante: “hoje acordei sem a menor inspiração pra ir à aula, pra retomar a dieta, pra ir ao dentista”...

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Terceira pessoa

Por Izabel Cury [izabelcury@uol.com.br]

Bem que ela tava precisando de um tempo assim, só pra ela. Bem que ela queria uma semana num lugar longe e fundo, onde nenhuma antena de celular fosse capaz de lhe achar e dizer: você recebeu uma mensagem de radar. Bem que ela precisava desligar tudo quanto é radar ao seu redor e ficar só.

Essa história de gente pra lá e pra cá dá uma canseira que não cabe nela, nesse espaço pequeno que é. Sabe, tem hora que ela bem queria esquecer das horas. Perder a noção do tempo é impossível, ela bem sabe, porque ele é maior que a gente. Mas perder a noção da hora dá pra ser. Não quer mais planos, não quer surpresas nem imprevistos. Precisa voltar a contar carneirinhos de noite. Cadê que ela dá chance deles aparecerem? Os pobres bichinhos andam sofrendo um bocado com esse sumiço. Transformou a cerca em cerco, fez dos carneirinhos suas obrigações, suas exigências e seus cansaços.

Bem que ela queria um abraço assim: ele chega em casa, sorri pra ela, a beija e lhe envolve toda nele e diz pra ela não ficar assim que amanhã já vai estar melhor e coisa e tal. Mal ele chega, entretantos (são muitos lamentos), começam os pedidos, as solicitações todas. E nada de oi, como foi seu dia. Tudo de oi, meu dia foi e mais as reticências.

Bem que ela queria lembrar dos seus sonhos. Mal deita na cama, o sono e o botão de desliga. Só que não tá desligando toda, porque cadê os sonhos que estavam aqui? (Pede que lhe avisem se encontrar com um deles por aí.) Dizem que é cansaço, que exaustão dá em sonho perdido. Não é que faz todo o sentido?

Bem que fica uma dúvida que é assim: cuida dela mesma porque ela melhor significa melhor pros outros ou cuida dos outros porque esse papo de ego e mim (ela) é todo uma grande bobagem? A dúvida tá ligada na tomada. A 220 volts. O diabo é que consegue fazer pra ela mais mal que faz pros pobres carneiros. Não se deixa, mas em compensação esquece sua parcela (inteira e absoluta) de humanidade e seu pacotinho de defeitos e imperfeições. Exige disciplina, perfeição e bico calado. Vamos lá, tá esperando o quê? A banda passar? A vida passar? Ah, suspiração atrás de suspiração, que nem todos os ahs do mundo serão capazes de lhe convencer de que a vida está passando e que é o presente que lhe apavora mais que tudo e que ela nem sabe mais que tudo.

Bem que ela queria chegar em casa, tirar o tênis, colocar o pé no sofá e olhar pro morro: ver o Cristo iluminado na noite anoitecida, que é esse o seu oxigênio particular. Seu oxigênio, seu travesseiro, sua poesia.

Bem que ela queria acordar de um sonho ruim e dizer: menos mal. E voltar pro sono e dormir bem e muito.

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Novos tempos

Por Francisco Malta [franciscomalta@hotmail.com]


Não somos anarquistas, somos jovens. Nem rebeldes, nem românticos. Preferimos outras referênciais, o da ação. Renovação imediata nos campos da arte, literatura e política. É preciso renovar as idéias neste país, ninguém precisa ser Nostradamus para prever o caos que está se instaurando no Brasil. E como já disse Caetano Veloso “caminhamos entre a delícia e a desgraça, entre os monstruosos e o sublime”. Tudo é muito rápido, o século vale um segundo na Internet. A sociedade média fútil alta continua lendo “Caras” e a baixa pobreza preocupada em ganhar na loteria.


Um país de Chico Buarque, Machado de Assis, Drummond, Glauber Rocha, Fernanda Montenegro, Gilberto Braga e Vinicius de Moraes precisa de novas referências. Precisamos que essa nova safra venha com inovações e faça-se presente. Pule de galho em galho salte de pico em pico. Enfim... Ouse.

É preciso unir nossas dúvidas, nossas angústias, nossas dores e levá-las a arte. A arte antes de ser intencional é espontânea. É a manifestação dos sentimentos, e sem essa revolta não há arte.

Não podemos ficar vivendo de glória do passado, a estrada pode ser árdua exigir esforços, mas se for percorrida com os olhos fixos na chegada, o caminhar torna-se mais confiante e a viagem produzirá mais frutos. É necessário preencher esse abismo que o nosso país, depois da geração dos anos 60, muitos já disseram que o Brasil não fará outra geração como aquela. Não precisamos de comparações e sim de oportunidade.

A princípio pode ser estranho quando nos deparamos à primeira vez com Machado de Assis ou Dostoievski, mas esse choque converterá em um amor para literatura. Mas a isto gostaria de acrescentar algo: é um duelo de gigantes. Leitor x escritor. É um trabalho de dupla. O leitor escreve em silêncio (solidão de quem recebe).
Necessitamos desse pacto, para desvirginar o ambíguo e fascinante mundo da literatura. Para concluir, deixamos as eternas palavras de Olavo Bilac:
“Oras direis ouvir estrelas
Pois só quem ama é

Capaz de ouvir e entender estrelas “

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Medo de amar

Por Francisco malta


Estou com medo de amar. Estou com medo de sofrer, sintomas de um coração despedaçado que não quer arriscar um novo amor. Calafrio. Inquietação, sensações alucinantes, pensamento soltos, palavras ao vento...
Mas é preciso tentar, buscar preencher esse vazio da alma. A princípio tudo são flores, ficamos imersos a presença do outro. Tudo começa com um olhar cruzando como um raio que vai e volta. De repente você está na rua, na igreja, na festa do amigo... Rola um clima. Dependendo das circunstâncias, a libido é acionada, mas o segredo da conquista, qual será?

Noite adentro, conversa vai, conversa vem, e você não tem nenhum problema no mundo, porque o mundo está ali, diante de você, para ser degustado. Nessas ocasiões ninguém sabe o que fazer. Ah! Porque eu não sou a Sharon Stones ou Tom Cruise. Todo mundo quer arrasar, afinal é a primeira noite.

Ninguém existe no mundo há não ser os dois corações apaixonados. E, na pressa que tudo pode acabar você rouba um beijo. Rouba outro e outros... E muitos outros... Até que a madrugada chega e você desesperadamente ainda não sabe onde vai dormir. Eterno dilema. A primeira vez, o primeiro dia, a primeira noite, desejo incontrolável de quebrar o relógio e dominar o tempo, os amantes não tem hora, não obedecem a regras do tempo, vão dormir juntos ou não? Enfim...

No dia seguinte o desespero. Quem vai ligar primeiro?
Então você liga para o seu melhor amigo, aquele que conhece você de trás para frente, esse que você costuma acordar às duas da manhã. Insegurança! Do seu ponto de vista os fatos são narrados da melhor maneira que possa ser um conto de fadas. Acho que me apaixonei! Seu amigo detona eternos conselhos. Mas o coração é insistente, quer ir além, quer pagar para ver. Telefona. Marca outro encontro e começa os planos, os sonhos. Namorar é uma eterna conquista...

O que estraga a felicidade é o medo. Medo da entrega, da perda, da decepção. Algo em mim está fora do pensar. Perco a identidade. Começo a amar todos os seus defeitos. Dentro de mim é desordem, achados e perdidos... Se amar for errado, amo o risco, o desconhecido. Quero viver a vida em versos, sonhar e me perder no meio de tantos sonhos. Olhar você e nesse estado de comunhão lhe dizer: eu quero te amar intensamente...


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Sem título

Por Isabel Paixão [isabelpaixao@globo.com]


Ela sentiu um gosto de sangue na boca. Parou com o esperneio e voltou-se para si, agora, em vez dos gritos, fingia uma dor enorme transformando toda fúria e cólera em um choro minguado e forçado. Decerto que era mesmo sangue, mas não sentia dor alguma. O gosto de sangue vinha agora como que para diluir a cólera.

Agora tentava se soltar do irmão, que a segurava sem muito esmero, muito mais para machucá-la do que para aparentemente se proteger dos membros desnorteados da menina.

Ela parou. Estava cansada. O gosto aumentava.

- Solta! Me solta! Tá doendo...!

E desatinou a chorar. Ele a soltou empurrando-a. A menina no chão engatinhava para o canto da parede olhando para o branco, um pouco embaçado pelas lágrimas forçadas, a sua frente. Cuspiu e viu a sua derrota ali, misturada a saliva e espuma vermelha. Ela encarou o chão, assustada, e depois encarou o irmão, com um olhar de acusação sobre ele. O menino, apático, a encarava muito mais preocupado com a reação de seus pais quando vissem aquilo, do que com o sangue que brotava da boca da menina.

Os dois permaneceram cálados. Ela chorava pela derrota da briga sem regras e sem ordem, mas agora também pela dor que despontava em seu maxilar. Era, desta vez, um choro de verdade. O menino estava paralisado imaginando seus pais vindo, vendo e vencendo-o. Ganhara da irmã um pouco de sossego e dos pais a certeza de um castigo. Castigo daqueles, em que se perde a alegria de viver por longos dias. Ele estava cansado daquilo, cansado do choro da irmã, cansado da irmã. Nunca quis ter irmã ou irmão, ao contrário de algumas crianças. Gostava de ser único, e não gostava da idéia de dividir seu espaço com alguém.

No ápice de sua infância, quando se é um menino com muitos brinquedos e amigos, sua mãe o chamou num canto da sala:

-Vem cá, filho. Mamãe precisa conversar com você.

A mãe desatinou a chorar, um choro frágil. Ele nunca a vira chorar assim antes. A mãe era feita de risos e doces. Fazia-o chorar algumas vezes, mas nunca o contrário. O menino pensava cautelosamente no que ele havia feito, desta vez, de tão grave para fazê-la chorar tão forte. A mãe olhando para baixo, para as mãos que se enrolavam na longa saia, como se fosse uma menina, engolindo o choro aos pouco, entre soluços e lágrimas, olhou para o menino - que a essa altura já estava quase aos prantos - e lhe disse:

- Estou esperando um irmãozinho seu. Ou irmãzinha. Ainda não sei.

A mãe, diferente de muitas outras, não contou isso com alguma alegria ou euforia. Contou como quem fez algo de errado, de proibido. Como quem quebra uma promessa.

O mundo do menino desabara, como quem pisa, sem dó, no seu castelo de areia, belo e custoso. Não seria mais só, o que soava de pior para o menino. Teria de dividir, teria de aprender a dividir. Ele nunca aprendera...

Ela estava cansada daquilo, cansada de perder para ele, de não ser amada por ele. Todos a amavam, ele não. A menina concluíra isso aos 4 anos de idade. Hoje, com sete, tinha uma prova física dessa teoria. O sangue escorria de sua boca. Nem sabia como fora o golpe, se fora sem querer, ou com intenção, se fora um tapa, ou um golpe que aplicou em si. Não vira, e nem se lembrava de muita coisa. Na hora da briga, só queria perturbá-lo, machucá-lo talvez. Mas nunca fora bem sucedida. Nunca saira ilesa. Ele segurava os bracinhos magros dela, deixando, sempre, alguma marca, mas nada como aquilo: sangue. Queria ser importante para ele, queria ser como ele, às vezes. Ser menino era mais legal. Queria ser menino e ter a idade do irmão. Meninos tinham sempre mais amigos do que as meninas. E ele podia fazer uma infinidade de coisas que ela ainda não podia, por ser nova. Sete anos mais nova.

Ela queria entender os jogos dele. Enormes e com um monte de regras, cartas, pinos, tabuleiros, risos, os quais nenhum destes, ela entendia. Ficava de lado, como se fosse gandula, como se pudesse catar um restinho da alegria que via em seu irmão com seus amigos naqueles jogos cheios de regras, e regados com muita Coca-cola e pizzas, patrocinados por sua mãe. O irmão às vezes reclamava, quando a gandula tocava em alguma coisa, ainda que fosse em algum pino fora do jogo ou alguma carta descartada. A mãe plenamente compreensiva a retirava pelo braço, como num jogo em que se descartam pinos e cartas.

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Metarmorfose

Por Isabel Paixão

...

três pontinhos

acordei e me vi

como três pontinhos,

três pontins...

pois é,

bem pior que ser barata

é ser assim...

mas ontem,

tudo era diferente.

eu era exclamação!

alto e esguio!

de toda expressão,

de todo contentamento!

dormia feliz,

mas sucumbiu...

sem explicação.

morreu o traço alto e esguio!

ruiu...

deitou a lado do pontinho

e se partiu.

ficando assim...

- logo em mim -

os três pontins

que querem tudo dizer...

e nada podem.

acordei

pequenino e baixinho,

todo fragmentado...

sem significado algum.

quero dizer algo

mas não sei o que...

quero terminar algo,

mas não sei como...

então...

encerro assim...

- ou não se encerra? -

igual a mim

com três pontins

...


Monday, November 29, 2004

Desvelando

Enfim, o Desvelando o olhar, aos poucos, vai quebrando o padrão do layout do Blogger. Com a ajuda da Liana, que sabe tudo de html, pude inserir o desenho, gentilmente cedido, da ilustradora Bárbara Mello [http://fotolog.net/babsmello].

Esperamos que todos tenham gostado.

Elis Galvão

Wednesday, November 24, 2004

Da semana

O Corvo
Inspirado no poema de Edgar Allan Poe

Por Felipe Mortimer Gomes Carneiro


Maldito seja aquele mês de dezembro, quando tudo o que eu pensava era na minha amada falecida. Nada era capaz de aplacar o desejo que eu tinha de, pelos menos, uma última vez, conversar com Leonora.

Entregava-me com todas as minhas forças aos livros e à maconha, na vã tentativa de tirar a cena de Leo caindo da janela da minha cabeça.

A véspera do Natal intensificava (se é que era possível) a minha angústia, já que parecia ser a única pessoa no universo sem um sorriso no rosto. Minha única reação era tentar preencher o vazio dentro de mim com a fumaça inebriante da droga.

Quando o relógio denunciava a meia-noite e todos começavam a abrir seus presentes... eu, olhos inchados de sono e do cigarro, quase dormia sobre um livro de um passado morto. Uma leve batida na minha porta me despertou. "Não pode ser o papai Noel", imaginei, e me levantei para receber a inesperada visita. Abri a porta já despejando minhas desculpas pela demora, mas só a noite ouviu minhas palavras. Confessando a mim mesmo a esperança que senti, gritei no breu "Leonora!"

Para minha surpresa era agora na janela que ouvia um ruído. Já preocupado, achando que alucinações tomavam conta de mim, abri a vidraça e fiquei olhando um corvo negro como os olhos da minha querida Leo entrar e pousar no alvo busto de Atena que há sobre meus humbrais.

Fitando aquele pássaro de ar tão nobre, desenferrugei um pouco este sorriso que há tanto não aparecia e perguntei, já inventando eu mesmo a resposta, o nome daquele bicho tão altivo. Para meu espanto, a ave disse claramente: "Nunca mais".

Após alguns instantes, sem saber ao certo o que pensar, resolvi fazer outra pergunta e assim organizar as idéias. Parecia-me óbvio que agora o silêncio tomaria o quarto.

"Já perdi muitos amigos nessa vida. Perderei você também?"

"Nunca mais" foi a resposta novamente.

Desta vez, o que o corvo dizia fazia perfeito sentido na minha cabeça, mas por outro lado, comecei a achar que tudo o que aquele bicho sabia dizer era "Nunca mais".

Aquele pássaro agourento me fitava e me fitava, como se penetrasse nos meus olhos e inflasse minha angústia. Tomado pelo desconforto que toda a situação causava, perguntei alto, sem saber se para mim ou mesmo para o corvo, será que minha alma nunca encontrará a paz e o conforto?" "Nunca mais".

"Nem sequer após essa vida, num paraíso distante, entre anjos e arcanjos, nunca mais encontrarei Leonora???" Disse o corvo: "Nunca mais".

Não, essa resposta eu não podia aceitar. A fúria me tomou como uma pomba-gira e pus-me a expulsar o maldito Nunca mais. "Vá embora, sua peste! Parta e não deixe neste quarto sequer uma pena que possa lembrar deste encontro infeliz. Vá e não volte jamais!"

Augusto como sempre, o corvo disse simplesmente "Nunca mais".

Ainda hoje, o corvo permanece no quarto, empoleirado no busto de mármore. Também minha alma se encontra no mesmo lugar, atrelada para sempre àquele maldito Nunca mais.

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O eu e o ego

Por Maricéa Martins Zwarg


Acabo de ouvir um bate-boca entre duas mulheres, no ap. em que moro de passagem, às duas da madrugada. Coisa desagradável. Não por acaso, nada o é, lia pouco antes “A Faca de Dois Gumes”, de Fernando Sabino, que trata das ambiguidades e questões confusas entre dois opostos, onde nunca se sabe quem é o culpado e quem tem razão, pois ambas se fazem nas duas partes. Sinto dor de cabeça, pois vivo em busca de harmonia . Ouvi meu nome em meio à confusão, tentativa talvez inconsciente de uma e outra me fazer levantar e advogar, como às vezes acontece. Resisti à desagradável tentação e transcendi o fato para escrever esta crônica. Acho muito confusa essa história de eu e ego. Lembro-me do filme “ O Senhor dos Anéis”, onde um menino idealista tem uma missão e enfrenta todos os obstáculos para realizá-la. Ele pode parecer o herói, mas a verdade é que tem a seu lado um amigo fiel que lhe alerta e livra o tempo todo de perigos que ele, apaixonado em sua missão, não vê. O amigo é sua razão e consciência e os dois meninos estão em nós.


Tudo muito lindo e legal e o desfecho seria rápido, não fosse uma criatura disforme que anda atrás deles ora em atitudes de bondade, amizade e compaixão, ora cheio de malignidade e desejos de roubar o anel, o “precioso”. É o ego, concordam? Esse vilão que está em nós para testar nossos ideais e possível realização . Já me acusaram de egoísta quando eu apenas estava tentando realizar metas com meus recursos visando também o bem comum, e já me disseram altruísta quando eu também estava secretamente buscando uma satisfação ou vantagem pessoal. Então hoje minha busca é a do tal caminho do meio dos budistas, agir ao ouvir a intuição, o anjo guardião, o eu saudável e realizador pra si e para o outro. O ego e suas armadilhas acaba sendo um aliado, pois tudo tem seu tempo de acontecer. O eu superior é o farol, mas o caminho, para mim, é o do meio. Somos humanos, mistura de divino e animal.

Acabo gostando de João Gilberto e sua busca pela exata harmonia entre voz e violão, alma e corpo. E concordando com Jabor ao dizer que Bush e Bin Laden são farinhas do mesmo saco, e que um quer o outro eleito , e este quer o outro escondido, pois um sem o outro não existe. Resta saber quem será o mediador para termos um pouco de paz neste mundo onde estamos todos ligados uns aos outros por fios invisíveis das teias tecidas por anjos e demônios a serviço do criador e da evolução. E até concordo com Paulo Coelho que diz que “quando você deseja muito uma coisa, todo o Universo contribui para que a consiga”. Se não deixar o ego vencer, ou ficar só sofrendo no idealismo. Fé e trabalho.

Bem, essa dupla de “líderes do planeta” já têm seus dias contados, creio que o mediador é o resto do planeta e espero consigamos amarrá-los e chutá-los logo para o planeta Sedna, além de Plutão, gelado e vermelho, como o calculismo e a ira que norteiam esses dois. Desta noite insone cheguei à conclusão que o silêncio muitas vezes é o melhor advogado. Numa última citação, “Se você quer transformar o mundo a seu redor há que primeiro iniciar uma reforma em si mesmo” – Dalai Lama. Se cada um que busca harmonia esforçar-se de fato, também mexerá nas teias que nos ligam e ajudará a melhorar este mundo. Maktub!

Monday, November 08, 2004

Mais crônicas - a oficina acabou, mas o blog continua


Fotos - Fragmentos de vida

Por Guilherme Sucena


... dentro de um caixa, achei outro dia, em armário profundo, muitas fotos jogadas, embebidas em perfume de madeira e dispostas sem que uma razão por ali tivesse passado; se amontoavam aleatórias e, em separado, contavam memórias de família; muitas de tempos em que ainda não me havia no mundo.

Espasmos de felicidade; fotos são embalsamamento do tempo, como bem diz Roland Barthes; são o tempo frisado, imagens em sulco de papel impregnadas, para no espaço físico e temporal podermos transportar. Assim, servem para afugentar tristeza quando perdido recluso, em algum canto do mundo; podem ser ainda bengala, bóia ou bote salva-vida para recorrer em momentos de desesperada saudade quando com o passar dos anos da memória ficar desprovido.

Tenho pouco mais de trinta, mas desconhecemos as regras que tira e dá a vida, por isso, às vezes me vejo acometido de uma vontade descabida de remexer nestes frames/flashes e recordar vitórias, encontros e despedidas; fatos vívidos da vida em diferentes lugares e companhias e noites e dias.

Nesta bagunça emotiva, o tempo tão cientificamente inquirido perde sentido; os ponteiros de nada valem; os fusos fundem confusos com as lembranças e o tempo se esvai; vai, e volta, e para, e volta a andar tendo como fôrma o nosso desejo.

Que fique bem claro: Não sou daqueles que recortam das fotos pessoas que querem esquecer, acho que tudo é você, sendo assim tudo que foi tem que permanecer para que possa melhor me entender.

Por isso, as preservo intactas; posso, eventualmente, descartá-las por completo - coisa que raramente faço; mas quando acontece, faço, muitas das vezes, baseado em conceitos questionáveis como estética ou pudor.

No mais, quero sabê-las por perto, quero guardar pros netos dos filhos que ainda não tive.

Preservá-las e um dia, quem sabe quando..... contemplá-las com calma à sombra de uma árvore frondosa, tendo no horizonte intangível um entardecer de fotolito, até fechar os olhos e meu tempo, que sei é finito, se der por completo.


Friday, October 15, 2004

AS ÚLTIMAS CRÔNICAS (DA OFICINA, EU ESPERO!)

3 x 4

Por Marcia Novaes

Dentre os vários caminhos a mim oferecidos, escolhi este para passar o tempo sobre a terra: descobrir quem sou. Uma vez ciente de meus contornos, quem sabe consiga compreender melhor o que os transcende.

Nasci em algum lugar em alguma hora específica do dia. Decerto, era manhã. Não possuo os vícios de quem chega ao planeta em horas sombrias. Mais certo ainda, não tive parto forçado embora a pressa não seja a companheira de meus tantos momentos.

Sou de natureza contemplativa e o pensamento é uma segunda pele que percorre os poros questionando-os, sempre, sobre suas funções e deveres. Só muito mais tarde percebi que também possuía direitos.

Direito a ser feliz e coerente com o de dentro, embora a coerência não seja o forte de minha constituição. Leio muito e escrevo bastante. Faço desta combinação binária a voz guia de minha apresentação.

Dos pecados capitais, assumo parte da gula, da preguiça e pedaço mínimo da inveja. Todos somos mortais. Em momentos drásticos tenho acessos de fúria onde me contorço em intolerâncias e aversões. Da luxúria não sou escrava mas tenho as costas lanhadas pelo “pecado” da carne.

Não reconheço rostos com facilidade e não percebo detalhes. Guardo questões que me maltratam e só aos poucos as ponho no papel. Me alimento de novidades e interesses, não sou fiel a uma paixão única. Quando não estou feliz, me escondo e muitas vezes me condeno, física e mentalmente. Até o dia em que tudo chega ao fim, de forma violenta e inesperada. Meus cinco minutos de ira.

Passional e intensa, sou pouco compreendida. Nem todas as lágrimas apagam os enganos. Talvez por isso distraia os outros dando vida no que não há, sons e vozes ao que não existe, fantasmas e inseguranças à realidade crua em que vivemos.

Neste caminho de ladeiras, esquinas e encruzilhadas, me comprometo de forma definitiva. Compactuo com o que me exige respostas. Peço tempo. Mais tempo. Nem que tenha que vender a alma para poder entender o porquê dessa busca, dessa falta que jamais preencheremos. Sou, essencialmente, existencialista.

Não sou de todo má. Um pouco confusa, tímida e cruel. Mas isso é apenas um detalhe.

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O mundo a descoberto

Por Márcia Novaes

Uma bolsa vazia carece de alma.

Talvez por isso as mulheres as tenham sempre cheias. Suas bolsas, quando abertas, desvendam mistérios e antecipam o juízo final. Transbordantes em acessórios, detalhes e miudezas, carregam o mundo. Cada objeto, por mínimo que seja, traz uma história, um motivo e um fim. Mesmo que o de coadjuvante frente a uma galeria de astros.

Batons, lápis, canetas, blocos, brincos, moedas, celulares, agendas, comprimidos, chaves, chicletes, agulha, linha, contas, bilhetes, cartões, cigarros, isqueiros, camisinhas, amuletos, livros, colares, botões, uma infinidade de seres e coisas possíveis e imagináveis.

Tudo se pode encontrar . Porque a alma da mulher é ampla. Como uma planície que se estende sobre as oscilações da vida. A tudo cobre como um lençol de cores variadas. A alma das mulheres é rica em detalhes, remendos, retalhos. Quem negará a incompreensão perene que a todos assombra quando ouve-se, do nada, um “você não me entende” ou quando, sem mais nem menos, uma lágrima desliza sobre sua pele sempre tão fina, sem as escarpas de pêlos e cortes da pele do homem?

Em uma bolsa de mulher se pode conhecer sua outra face. O que esconde por timidez ou medo. O que sugere por olhares e sorrisos. Em uma bolsa de mulher atravessamos o túnel de existência rumo á gênese, ao raiar do primeiro dia. Se nada encontramos é porque a procura não foi digna, o viajante há que se refazer e tentar novamente.

Quando uma mulher abre a bolsa ao seu lado, despudoradamente, mostra mais que a alma, mais que o corpo de curvas e desvarios, mais que seus lagos de águas límpidas e doces, que seus desertos de aridez comovente.

Quando uma mulher desvenda aos nossos olhos o que traz a tiracolo, é um pedido, não, é mais que um pedido, uma ordem. Ordem de entrega total. Impensável então, depois de chegar tão perto, virar as costas e perder, para sempre, a terra sagrada.

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A vizinha da frente

Por Maricéa Martins Zwarg

Sempre tive uma visão fantasiosa e lúdica do mundo ao meu redor, dessas que quando alguém está falando ou algum fato está desenrolando-se à minha frente, logo um fundo animado e personagens de desenho em quadrinhos criam-se em minha mente, geralmente com algum sentido de deboche que, segundo meu pai, vem de nosso lado alemão. Esse lado da família sempre foi alegre e irreverente, enquanto o lado português é mais melancólico e saudoso. Também segundo os debochados da família, o alemão é apenas um português que aprendeu matemática.

Mas vamos à vizinha. Precisando eu morar por uns tempos num pequeno conjugado em Copacabana, convivi por essa ocasião com várias vizinhas pra lá de idosas. Um dia, ao sair do elevador, eu a vi e ouvi, balbuciando um “boa noite” ao qual não ouvi resposta, e um arrepio percorreu-me a espinha. Entrei rapidinho em casa, fazendo sinal da cruz, crendo piamente ter estado diante de nada mais nada menos que Madame Min, aquela amiga da Maga Patalógica, que juntas vivem a perseguir o Tio Patinhas. Essa senhora, que Deus me perdoe, tinha totalmente a cara, o corpo e a voz das bruxas que atormentaram minha infância nos contos dos quais desejo Deus livre logo todas as criancinhas. A dita senhora era baixinha, com mais ou menos um metro e meio, corcunda, com vasta cabeleira cinza-azulada e enormes sobrancelhas escuras que juntam-se em “v” entre os olhos, dando-lhe um olhar malvado e tirânico. Além de tudo, dona de uma voz cavernosa , gutural. Fixava-se eventualmente à porta de seu apartamento observando tudo e todos, resmungando sozinha, e , ao ver-me, sempre soltava uns grunhidos ininteligíveis.

Supersticiosa que sempre fui, atribuí à velhinha minha má sorte, pois desde que vivia ali minha vida andava para trás ou estagnava, e eu dormia muito mal e tinha pesadelos. Um dia estourou um cano d’água em sua casa, que inundou o prédio do terceiro andar para baixo, obrigando as várias senhoras a saírem com seus rodos pelos corredores, enquanto ela tudo fiscalizava. Tinha ela um sobrinho que me parecia um “mucamo”, uma versão masculina das criadas de companhia de antigamente. Precavidamente, comprei uma arruda no vaso, incensos, e comecei a dormir melhor. Assim, fui convivendo com minhas impressões fantasiosas, sempre com medo de, ao estacionar meu carro , encontrar na vaga frente à minha uma vassoura, prova cabal, desculpem o trocadilho. Ao finalmente mudar-me do prédio contei minhas impressões ao porteiro que, rindo, disse ser ela devota de Nossa Senhora Aparecida, fervorosa católica que vive rezando novenas e ajudando aos pobres. Estimada por todos no prédio, ainda sustentava os estudos do sobrinho. Ah, bom...a gente se engana, né?

Ainda lembrei-me de uma dessas historiazinhas safadas da infância que alguém sempre contava com uma voz tenebrosa, onde havia duas inocentes criancinhas e de repente aparecia uma velha...(suspense), com um facão na mão! (voz engrossando e subindo o tom – suspense prolongado ) ...passando manteiga no pão... ( voz singela e cínica ) . Ora vá! De qualquer forma, mudei-me aliviada por não ter mais a impressão de que um dia, ao sair do elevador, ela da porta me convidaria a experimentar uma “poção”... com cobras, lagartos, sapos, asas de morcego...essas coisinhas básicas da culinária de Madame Min e Cia. Esconjuro! Valei-me , meu pé de arruda!

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Prosa em Copacabana

Por Maricéa Martins Zwarg

Numa tarde de domingo, em Copacabana, no calçadão

Um mendigo proseava a gestos largos com Drummond

Que parado, refletia um texto em consideração

Àquele que com eloqüência o chamava à conversação

A pauta era a beleza, o mar, o céu e a natureza do Rio

E então essa paisagem os levava ao piano do Tom

E o mendigo então pensava : “que grande sujeito

esse que ouve com tanta atenção”

Talvez se improvise aqui uns versos de ocasião

Mas quando o tom perdia o mendigo ensimesmava

Na tarde que caía com as sombras da prostituição,

das meninas, dos moleques, da sujeira das ruas

dos crimes, do abandono, lembrando a própria condição

E Drummond tudo entendia pois aquele era seu dia a dia

Esses mesmos esquecidos são agora sua companhia

E os dois um tanto cansados, assim sentados lado a lado

Impotentes, calados, varando a noite a imaginar

Uns versos pra resgatar a Princesinha do Mar...

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O vazio

Por Isabel Paixão

23:30 da noite e um imenso vazio perambula por ruas da Zona Sul. É o meu ônibus. Somente eu e algumas outras pessoas sonolentas voltando de uma Quarta-feira tediosa. O vazio vai tomando todo o ônibus aos poucos, à medida que os passageiros vão chegando a seus destinos.

Vou tentando fixar o olhar em algo interessante do lado de fora da minha janela. Numa tentativa de fugacidade, não muito bem sucedida, passo a observar o cobrador. Sua cabeça vacilante pendulando entre um espasmo e outro do enorme vazio de metal.

Distraída e vazia, tanto quanto aquele ambiente, não percebi, mas me desligava pouco a pouco daquela realidade perdida.

Quando de repente, senti algo a tocar meus cabelos. Pude sentir que alguém no banco de trás estava acariciando uma mecha mínima de meu enorme emaranhado castanho escuro. O prazer e o medo do desconhecido se condensavam e congelavam meu corpo, abandonando-me inerte e paralisada. Enquanto isso, minha mente borbulhava e preenchia o vazio daquele ambiente com todo tipo de pensamentos e suposições. Quem poderia ser? Por que e para que tocar em mim assim, justo em meu cabelo?

Tenho de confessar o quanto aprecio os carinhos em meus cabelos. Agrada-me, em muito quando alguém os envolve em seus dedos arrastando-os para baixo, como quem tenta desembaraçá-los, acabando por complicá-los ainda mais. De certo é o carinho que me ganha fácil.

Devia de ser, então, um homem deveras sensível, carinhoso e gentil. Por que não? Mas, e se fosse um tarado? Desses que tem distúrbios hormonais e psicológicos?

Não. Se fosse um tarado de verdade, teria me abordado de forma abrupta e cruel. Já teria sentado ao meu lado e me envolvido com suas mãos inescrupulosas! De certo que não é um tarado!

Não tive nem muito tempo para ficar aliviada quando me veio à mente:

Mas, e se for uma criança? Estaria eu tendo ilusões amorosas com um garotinho de 11 anos! Ou pior, com uma menininha de 4?! Porém, a essa hora da noite, garotinhos de 11 anos e menininhas de 4 não andam sozinhos em ônibus, nem em nenhum outro transporte público. Logo, conclui-se que estariam eles acompanhados por um adulto, o qual já os teriam censurado por mexer em cabelos de estranhos, impedindo-os de continuar. De certo é um rapaz!

Meus pensamentos recheavam e coloriam o ambiente, embalando o sono do cobrador e a vagarosidade do motorista.

Deveria acabar logo com aquele tormento que instigava a minha curiosidade:

Quem seria e como seria o tal rapaz?!

Respirei fundo como se pudesse tomar de volta todas as fantasias flutuantes que bailavam no ar. Engolindo-os todos, deixando o ambiente vazio e pálido novamente. Agora, cheia de coragem, virei o corpo com o intuito de voltar-me para trás. Mas, não consegui. Ao tentar fazê-lo, pude sentir que estava presa pela mecha. Agora, uma dor queimava pontualmente a região capilar e, como num reflexo, desvencilhar-me daquele ser era uma questão inadiável. Toda a admiração e encanto que eu criara por aquela pessoa iam se esvaindo de mim.

Inclinei o corpo para frente e com um tanto de força conseguia me desvencilhar pouco a pouco. Pude ouvir ainda, alguns fios se partindo e uma parte deles ficando com a tal pessoa.. Não mais unidos pela mecha, tudo acabara ali, antes mesmo de começar.

Voltei meu corpo para trás, desta vez com o intuito de virar-me para insultá-lo.Mas, tive uma grande surpresa.

O que? Como assim?

Não havia ninguém! Eu estava só naquele ônibus. Ainda sem compreender, olhei meio que instintivamente para as costas de minha cadeira, e então, pude ver...

Um simples e enferrujado parafuso, envolto por um emaranhado de fios castanhos escuros.

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Pipoca da embalagem rosa

Por Liana R. Dantas

As pipocas de embalagem rosa são uma verdadeira obsessão. É um retrato metaforizado das minhas compulsões, que não irei tece-las todas neste espaço já que não estamos em uma “Oficina de Epopéias”! Como a caneta Bic, temos pipoca de embalagem rosa espalhada por tudo que é canto.

Determinada e confiante, resolvi começar um tratamento para...digamos, a redução corpórea – já que ‘emagrecer’ carrega em si muita responsabilidade!- com um médico excelente e por hora, custoso, já que também é médico de ‘fenômenos’, enfim. Portanto, tento não pensar em pipocas!

A pipoca de embalagem rosa e a prática

Um outdoor da ‘fulana modelo’ me incomodara. Que menina linda e magra! Que ódio. ‘Há uma esperança’, pensei. ‘Estou fazendo por onde’, completando. E me confortei. E de repente, avistei um vendedor de pipoca da embalagem rosa passando. E perdendo os meus referenciais sintagmáticos, esquecendo certos compromissos, não resisti! ‘O da pipoca rosa!’ Gritava pela rua. ‘Alou, da pipoca!’ E nada. Comecei, então, a sentir raiva daquele vendedor (de pipocas rosas), que desprezava fiéis compradores como eu, oferecendo o produto a todos os taxistas que rejeitavam a dita cuja.

‘Deus só pode estar me castigando! Só porque estou restrita a alguns alimentos, Ele não quer que eu me aproxime do vendedor de pipocas’, pensei baixinho em momento de desespero.

‘Ô moço da pipoca’. ‘Ei! Não quer vender?’. ‘Meu filho, eu quero pipoca!’. E ele, continuava sua peregrinação pipoquística pela Primeiro de Março. Classe, educação, senso do contexto situacional já não exista mais, agora só restara o constrangimento de Pedro, meu amigo ao meu lado. ‘Olha lá, segue o cara!’ disse a Pedro. E ele foi correndo com suas pernas de girafa atrás da pipoca e do menino.

Alcançando o menino vendedor, Pedro parou e não disse nada a ele. E um ficou de frente para o outro, como um espelho. Descontrolada, não pude compreender a cena, achei um pouco estranho, mas estava tão absorta da realidade, que tive uma chegada à lá personagem de Agnaldo Silva, porém com muito mais graciosidade: ‘Querido, estou te chamando há séculos desde lá do Paço, você não ouviu?. Hein?’ Sorri, contente por o ter alcançado. Freneticamente procurando a dinheiro, mais um ‘Hein ?’. E não ouvi a voz de ninguém. Nem de Pedro, nem do menino.

Ele, o menino, sorria sem graça, só fazia um gesto com o indicador indicando que a pipoca custava um real. O menino, vendedor de pipoca da embalagem rosa, de marca Come-come, era surdo!

Meus sentidos ficaram dormentes. Acredito que o de Pedro também. Esta altura eu já estava rouca. Comi a pipoca em silêncio, rindo de desespero, quase engasgando. E pensei em nunca mais furar a dieta!

Deus é sagaz. E ‘Fulana do outdoor’, aqui vou eu!

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O degrau

Por Julio César Corrêa



Levei algum tempo para entender a razão daquele degrau na porta do Nova
Capela, o quartel general dos boêmios, ali na Avenida Men de Sá. Cá pra nós,
aquele pedaço de mármore preto já é bem antipático. Mas sempre achei também
que colocar um degrau na saída de um bar boêmio, palco de porres
surrealistas, fosse uma maldade crudelíssima.
O maldito degrau nunca fez mal nem a mim, nem a minha turma de antigos
freqüentadores. Mas sinto minha preocupação aumentar agora, quando o chamado
renascimento da Lapa, tem atraído uma nova geração de boêmios. Gente bonita,
famosa e moderna, vinda lá da zona sul. São estressados, falam alto e riem
um riso de vitrine. Como aqueles antigos caçadores ingleses, no continente
africano, eles vêm à Lapa atrás de programas exóticos. E o degrau malvado
não quer saber, derruba sem piedade.
O problema é sério e as autoridades precisam fazer alguma coisa, antes que
o pior aconteça. Já tem até um mendigo negro, conhecido por Gudnaite, que,
nas madrugadas, fica à espreita, esperando faturar algum trocado, fazendo
curativos naqueles que se ferem nas quedas espetaculares.
E o danado do degrau tem derrubado muita gente.
O triatleta e modelo Kiko Pallentine, por exemplo, um garotão de quase dois
metros de altura, ficou de quatro na calçada. A promoter e modelo Paulinha
Martine Blanco e o modelo e estilista Silvinho Dreher também desabaram. O
multimídia-roteirista-diretor de teatro-escritor esotérico-professor de ioga
e, nas horas vagas, funcionário público, Duda Bacardi, quebrou o nariz e o
celular numa queda histórica. Enquanto a atriz-vencedora de reality
show-capa da Playboy e top model Veronique Cointreau fraturou suas nádegas
avaliadas em US$ 100 mil.
Não daria para enumerar aqui todas as vítimas do degrau diabólico. Mas em
nenhuma queda houve tanta badalação, como na da cineasta-modelo e lésbica
nas luas cheias, Ângela Smirnoff. Membro de uma família nobre da Rússia,
Ângela chegou cercada de repórteres, socialites e deslumbrados de plantão.
Após encarar uma feijoada nocauteadora, regada a muita caipirinha, a boêmia
de sangue azul não foi alertada sobre o terrível degrau e acabou beijando a
calçada da Men de Sá, onde pisam e escarram plebeus de todos os tipos.
E ainda passou pelo vexame de ser socorrida pelo Gudnaite.
- Vai um mercúrio cromozinho aí, ô madame?
A queda da nobre escritora foi a gota d’água e marquei uma reunião de cúpula
com a minha turma, para iniciarmos um abaixo-assinado, uma passeata, um
abraço em torno do quarteirão. Falou-se até em irmos a Brasília. Tudo para
dar cabo daquele degrau maldito.
Mas após muito papo e muitos goles (não necessariamente na mesma proporção),
encontramos a razão de ser daquele degrauzinho safado. Entendemos que ele
precisa existir para que nós, testemunhas de um Rio mais tranqüilo e feliz e
que procuramos no Nova um restinho de lembranças daqueles dias cada vez mais
distantes, ao sairmos, sejamos obrigados a parar, respirar e encontrar
forças para encarar a atual realidade carioca.
Concluímos também, que o degrauzinho só derruba os falsos cariocas, os que
nada têm a ver com o espírito do Rio que conhecemos. Só caem os apressados,
os deslumbrados, os de nariz em pé e os sem-jogo-de-cintura. Nós não
corremos este risco.
O quê? Parece conversa de bêbado?
Ôgh! (soluço) E é.

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A primeria vez

por Elis Galvão

Celsinho, 26 anos, trabalhador, puro, virgem, quase um santo, mas acabou arranjando uma namorada, Joana dos Passos. Esta falava pelos cotovelos e como toda menina do seu interior, Lagoa Seca, queria casar, ter uns meninos e até ajudar o marido no roçado. Quando Joana dos Passos começou a namorar Celsinho, sua mãe, logo, preocupou-se em conversar com a filha sobre as coisas íntimas do casamento. Naquele tempo, final dos anos 70 no agreste do Rio Grande do Norte, as mocinhas deviam casar virgens, saber cozinhar e ajeitar uma casa.

Muito bem, o namoro avançou pelos dias. Celsinho não fazia nada além de dá um beijinho na bochecha de Joana dos Passos e pegar sua mão. Ela queria mais, queria ser arrochada, beijar de língua, tirar um sarrinho. Ele era um respeitador. Namoravam no alpendre da casa dela, sempre próximos da luz do candeeiro, e Joana dos Passos ficava louca pra ir pro escurinho. Sempre que ela puxava o rapaz para o canto: “Joana mulé, tamos na casa dos teus pais, não podemos ficar nos escuros.”

Joana dos Passos seguia conversando com a mãe sobre as coisas da vida de casado. Na casa de Celsinho, ninguém falava sobre das intimidades a dois, mas o pai já andava apressando o rapaz: “Celsinho meu filho, você já está enrolando há dois anos nesse namoro tá na hora de pedir a moça né.” O rapaz pediu, e, claro, ela aceitou.

No dia do casamento, ela usava um vestidinho branco de chita com babados e sua boca estava mais vermelha do que o coloral que ela passou. Ele, calça de tergal azul e camisa branca de mangas. Houve uma festança. Foi aquele almoço com todos os familiares e conhecidos, muita farrofa, arroz tapa parede – que tem uma consistência igual a do arroz ao leite - galinha, peru e carne de boi assada. Finalzinho de tarde, os dois foram para a casa que o pai de Celsinho construiu para eles. A felicidade de Joana dos Passos era tão grande. Quando chegaram na casa ela começou a tirar a roupa.

- Que isso mulé, que que tu tá fazendo?

- Como assim Celsinho?

- Tu tá maluca é?

- Eu?

- É mulé, tu.

Joana tirou o sutiã e puxou a calcinha.

- Mulé, eu vou contar pro teu pai, vou contar tudinho disso dessas astúcias.

Ela, paciente, foi se aproximando dele, foi ajeitando as coisas.

- Joana, tu... tu tá fazendo o que?

- Tou fazendo o que a gente faz quando casa.

- E quando casa tem que tirar a roupa é? Vixe Maria!

- Homi, deixe de falar e vamos ali pra cama, vem.

- Sei não visse.

- Vem.

- Joana tu tá em cima de mim?

- Tou!

- ai ai ai ai ai Joana.

- ú ú ú ú Celsinho.

- Joana, Joana? – Celsinho no meio do gozo.

- Que foi homi?

- Vamos guardar um pouquinho pra amanhã pra não se acabar.

http://senhoritaelis.zip.net/

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O assalto

Por Francisco Malta

O relógio da praça General Osório, marcava vinte horas e trinta e cinco minutos quando Selminha Self-Service atravessou a calçada em direção ao supermercado Zona Sul.

A traveca desfilou até a seção de Horti -Frutti e num fluxo de segundos, a bicha começou a gritar:

− Assalto! Assalto!

Foi um tumulto só. As pessoas se jogavam pelo chão, corriam, escondiam e se acotovelavam pelo supermercado. A traveca não parava de gritar, os seguranças chegaram apressados ao lado do gerente e não conseguiam avistar nenhum assaltante. Foi então que o gerente indagou:

− O que aconteceu menina? Por que você está gritando: Assalto...Assalto.

E a traveca continuava histérica .

− O preço da mandioca...Olha o preço da mandioca. O senhor ainda vai querer me convencer que isto não é um assalto?

Bateram boca um tempão. As distintas senhoras começaram a vaiá-la. O gerente teve então a idéia de convidá-la para um particular. A traveca subiu para o escritório com o gerente e os demais seguranças.As senhoras continuavam enfurecidas. De repente houve um silêncio profundo. Quinze minutos depois a traveca desceu a escada com algumas mandiocas na mão. Discutiu com os fregueses.Saiu.Atravessou a praça e seguiu desfilando pela Visconde de Pirajá com as mandiocas na mão.

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Duelo

Por Ronize Aline

Vitorino observava o outro a distância; e era por ele observado. Estavam assim há duas horas, pelo menos. Não poderiam continuar por muito mais tempo e seria ele, Vitorino, a tomar a iniciativa. Respirou fundo, estalou os dedos, cuspiu uma saliva ácida no chão de terra batida. Deu uma última olhada em suas botas e partiu. Começou com um primeiro passo - é assim que começam as grandes caminhadas. Não era uma longa distância que os separava, mas a tensão deixava o ar pesado e o percurso difícil de ser cumprido. Outros passos se seguiram; Vitorino fazendo questão de manter o contato visual. Temia que, se piscasse, o controle - que julgava seu - lhe escaparia. Ficaram tão próximos que podiam sentir a respiração ofegante um do outro. Uma última tomada de fôlego e Vitorino estava pronto para a derradeira ação. Sem dar tempo para que o outro reagisse, saltou e postou-se soberano sobre o dorso nu daquele alasão arisco. O duelo tinha seu vencedor.

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